Fazia uns duzentos anos que a fechadura da porta de entrada da minha casa estava com problema. Às vezes a chave enganchava dentro em uma posição que não permitia abrir ou fechar a porta e nem tirar a chave. Tinha que ficar dando vários vai-e-vens para poder tirá-la. Era uma falha de segurança, pois nos últimos meses estávamos dormindo com a porta aberta, confiando apenas nos cadeados do portão (principal barreira da casa) e em um ferrolhinho mixuruca que eu sempre burlava quando chegava tarde.

Eu estava certo que teria que comprar uma fechadura nova e fui desmontar a antiga. Quando você for trocar alguma fechadura sempre – eu disse SEMPRE – leve a antiga para a loja e diga: “Eu quero uma que substitua essa”. Isso porque existem no mercado diversos tamanhos e formatos que podem ou não se adaptar ao buraco já existente na sua porta. Comprando errado você pode transformar uma tarefa simples de meia hora em um processo complexo de carpintaria de 8 horas resultando em mais uma ida à loja de ferragens dessa vez para comprar uma porta nova.

A primeira coisa a se fazer é remover o miolo (1), ou cilindro. Essa peça pode ser única ou formada por duas irmãs encaixáveis. Para retirá-la você tem que folgar esse parafuso aqui (2). Não é necessário tirar o parafuso (às vezes ele nem sai). Basta folgar até que ele deixe de sair, sentindo se o miolo foi liberado. Depois é só empurrar de um dos lados que a peça completa sai do outro. Sentindo dificuldade em empurrar, puxe de cada lado para dividi-lo.

Em seguida você remove a maçaneta (3). Ela pode se prender á fechadura de duas maneiras diferentes (que eu conheço): ou ela é ligada ao espelho (4) ou à maçaneta do outro lado através de um pino. No primeiro caso, basta soltar os parafusos (5) que prendem o espelho à madeira da porta que a maçaneta sai junto. No segundo, você tem que puxar esse pino (6) com um alicate. Depois puxa as duas maçanetas e elas devem se soltar. Para remover o corpo da fechadura, resta apenas tirar esses dois parafusos (7) e pronto.

Fechadura montada

Antes de ir à loja comprar uma nova, resolvi dar uma lubrificada pra ver se resolvia.

A unção

O óleo é um negócio mágico mesmo. Parece que ele foi feito para dispositivos mecânicos devido a duas de suas principais características:

  1. A primeira é a hidrofobia. Não é que o óleo seja irritadiço e com espuma na boca. Nesse caso o que acontece é que as suas moléculas e as da água se repelem. Quando um mecanismo é lubrificado com óleo, sobre as superfícies internas é formada uma película que impede que a umidade se acumule, evitando a oxidação.
  2. A segunda é a viscosidade, ou seja, a sua dificuldade de escorrer. Quanto mais viscosa a substância, mais dificilmente ela escorre. Graxa é mais viscosa do que óleo que é mais viscoso do que a água. Essa característica é o que faz com que a película mencionada acima seja formada entre as partes móveis dos mecanismos. Isso evita o contato direto de metal com metal, reduzindo o atrito (e desgaste) e facilitando a movimentação das peças.

Existem diversos tipos de óleos lubrificantes em spray no mercado, sendo os mais famosos o WD40 (mineral) e o White Lub (vegetal). Esse item não pode faltar na mala de ferramentas de um Buliçoso das Galáxias. Na minha faltou (faça o que eu digo, não faça o que eu faço). Com preguiça de ir a uma loja de ferragens eu improvisei. Acabei utilizando um restinho de fluido para freios que tinha aqui em casa. Para lubrificar mecanismos simples, você pode usar praticamente todo tipo de óleo, já que quase todos mantêm aquelas duas características que eu falei. Certa vez eu eliminei um rangido da porta da geladeira com óleo de soja.

Então, eu despejei um pouco do fluido de freio dentro da fechadura e fiz o movimento de abrir e fechar com a chave diversas vezes para que o óleo se espalhasse bem. Não é que funcionou? Depois de algumas giradas, a chave deixou de travar e eu economizei um bocado de real. Com um trapo eu limpei o excesso do óleo que lambuzara a fechadura e pronto, só foi seguir o passo-a-passo de trás para frente e a fechadura está lá, pronta para mais alguns anos cumprindo o seu dever.