A interligação do sistema elétrico brasileiro é uma faca de dois gumes. Traz a vantagem de distribuir a energia de regiões mais providas para outras com menos unidades de geração, mas também contribui para o efeito dominó que causou esse apagão em vários estados do país.

Por que?

O seguinte é esse: em sistemas elétricos complexos, como os de transmissão, existem diversos tipos de proteção que visam salvaguardar os equipamentos do sistema, principalmente. As principais proteções são de sobrecorrente, tensão e frequência. A proteção de sobrecorrente impede que passe mais energia nos cabos do que eles possam suportar. A tensão e a frequência  também precisam estar em um patamar preestabelecido para que não cause danos a equipamentos, tanto das distribuidoras quanto dos consumidores. Tensão e frequência altas ou baixas demais é ruim.

Essas três variáveis são muito dependentes entre si. Façamos a velha analogia da pressão e vazão da água para melhor entender a tensão e a corrente. Imagine um cano com um furo chiringando água. Se você fizer mais furos, a pressão com que a água sai no primeiro furo vai diminuindo. Se você tapar os furos, a pressão do primeiro aumenta novamente. Se você quiser que cada furo chiringue com a mesma pressão (tensão) você tem que controlar a abertura da torneira. Pois pronto: cada furo é um sistema consumidor. Quanto mais consumidores, maior a corrente fornecida e menor a tensão, que deve ser regulada dentro da faixa aceitável. E vice-versa.

Como aconteceu?

Primeiro houve um desligamento de algum lugar causado por alguma proteção. Pode ter sido um raio, ou falha em algum transformador ou alguma linha caiu no chão ou alguma árvore tocou na linha. Não interessa. O que interessa é que esse problema causou o desligamento de uma região inteira, exemplifiquemos com o Paraná.

Faz de conta que uma mesma linha de transmissão abasteça o Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Quando o sistema deixou de fornecer energia para o Paraná devido a esse problema, a tensão da linha que ainda energizava o RS e SC subiu repentinamente (tapou um furo, a pressão dos outros subiu). Isso fez com que as proteções de sobretensão (tensão alta) desses dois estados também atuassem, desligando-os.

É aí que a interligação nacional vira um problema, porque os estados do sul fazem parte do mesmo sistema maior que abastece o sudeste e o centro-oeste, repercutindo a bagunça em efeito dominó.

Isso não quer dizer que esta interligação seja ruim. O que deve ser feito é  manter a contínua evolução tecnológica da malha elétrica nacional com sistemas que prevejam esse tipo de falha e atuem mais rapidamente de modo a reduzir os efeitos.